Aumento do volume do Alto Tietê: a mais nova barrigada da mídia na crise hídrica

4 de novembro - 9:23

Jornal GGN

Para espanto de muitos que acompanham mais de perto a crise hídrica, a SABESP noticiou, em sua seção de transparência, que o Sistema Alto Tietê contava com 8,9% de sua capacidade neste último Sábado. A surpresa deriva do fato de que, no dia anterior, a empresa noticiara que o sistema estava com apenas 6,6%. Curiosamente, um primeiro dado, de 6,5%, havia sido apresentado pelo Governo no horário habitual em que ocorrem as atualizações diárias.

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Foi, então, trocado pelos 8,9% acima. Sem nenhuma explicação técnica, a SABESP prosseguiu, divulgando hoje que a capacidade do sistema estava, agora, em 8,8%. De fato, essa mudança nos dados foi captada pela Milena, leitora do blog, a quem dou os créditos pelo registro abaixo:

De Sexta para Sábado, havia chovido cerca de 14 mm – uma precipitação moderada. A esta altura, um evento isolado desse seria absolutamente insuficiente para gerar um aumento de 2,3 pontos percentuais na capacidade global do reservatório – o que significa aproximadamente 12 bilhões de litros de água (a capacidade toda do reservatório Rio Claro, apenas para que tenham uma ideia). Entre Sábado e Domingo, por sinal, choveu 23 mm, e o nível do Alto Tietê permaneceu o mesmo: “8,9%”. Nos meios de comunicação, nenhum comentário ou questionamento. Há de se convir que um evento como esse geraria imensa curiosidade por parte da imprensa, mas o incremento foi noticiado como se fosse algo comum: “Após chuvas, Alto Tietê sobe, Cantareira desce”, era uma manchete do G1.

Hoje, no entanto, a Folha noticiava, como notícia principal no Portal do UOL, que “Chuva ameniza situação do Alto Tietê”. Vejam abaixo:

Ou seja, atribuíram, sem questionamentos, às precipitações do fim de semana o considerável aumento de seu nível em tão pouco tempo. A curiosa falta de senso crítico foi acompanhada pelo G1 (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/11/nivel-do-alto-tiete-sobe-com-chuva-mas-cantareira-continua-em-queda.html), mas de forma mitigada: apresentaram como causas do incremento do volume as chuvas e “obras de captação” – que não haviam sido explicadas, até o momento da publicação da notícia, pela SABESP. De todo modo, a reportagem comenta que a Secretaria de Recursos Hídricos iria explicar o fato, antecipando que, há cerca de 10 dias, comunicaram a autorização pelo DAEE para a construção de um dique na represa de Biritiba-Mirim. Como vocês já sabem, trata-se de um fato já relatado aqui no blog há pelo menos 4 meses (!). E, mais grave, há cerca de um mês comentei aqui a respeito do início da captação do volume morto desse reservatório.

Causa absoluta indignação, então, a falta de qualidade da cobertura jornalística sobre a crise hídrica. Se ela já é precária, de modo geral, com relação ao Cantareira, ela praticamente inexiste para o Alto Tietê – cuja situação é ainda muito mais grave, e proporcional ao silêncio da mídia ao longo destes últimos meses.

É a partir desse mau jornalismo que se torna possível a um governador de Estado dizer que ”No caso do Alto Tietê nós subimos [nível do sistema], já estamos em quase 9% em razão de um novo sistema que foi incluído”. Lendo rapidamente a resposta de Alckmin, temos a impressão de que as obras em questão permitirão um contínuo e expressivo crescimento do Sistema, afinal, “já estamos em quase 9%”. Outra conclusão possível é a de que a situação vai se tranquilizar diante da “inclusão de um novo sistema”. Como assim?

Ora, mais uma vez somos brindados com um misto de mentiras e factoides, nada mais do que isso. Cabe esclarecer, então, o seguinte: 1) não há sistema novo algum que esteja sendo incluído, mas sim o volume morto da represa de Biritiba, conforme anunciado há tempos; 2) a chuva, muito provavelmente, não é responsável pelo crescimento nem de 0,1 ponto percentual do Alto Tietê (abaixo, mostrarei os dados); 3) a adição do volume morto do Biritiba não aumentará em mais nada a capacidade do Alto Tietê, porque os 10 bilhões de litros que entram são quase irrelevantes diante dos 517 bilhões que expressam a capacidade total do sistema; 4) na verdade, há uma maquiagem contábil muito curiosa aí – explicarei melhor a seguir, mas na verdade estão considerando o incremento de 10 bilhões de litros, sendo que 5 bilhões deles já foram consumidos.

Primeiramente, é preciso esclarecer que os níveis de todos os 5 reservatórios que compõem o Alto Tietê, de Sexta até hoje, diminuíram como nos outros dias ou mantiveram-se os mesmos. Não houve incremento algum dos níveis, o que significa que a chuva não impactou o sistema.Vejam abaixo:

Os dados acima, que compõem o monitoramento diário que realizo, a partir do SAISP, dos dados dos sistemas Cantareira e Alto Tietê, são inequívocos: os reservatórios tiveram seus volumes diminuídos, ou se mantiveram nos (baixíssimos) patamares atuais.

Então, o que ocorreu para que ocorresse o incremento em questão?

Antes de tudo, vale comentar que a SABESP, aparentemente, estava deduzindo o volume morto consumido de Biritiba no cômputo do volume total do Sistema – afinal, nenhuma menção pública à sua extração havia sido feita, nem havia conhecimento público de alguma autorização, por parte do DAEE, para a sua retirada (apenas para a execução das obras necessárias). Isso é o que tem ocorrido, p.ex., nos relatórios diários de monitoramento da ANA com relação à extração (ilegal) da segunda cota do volume morto do Atibainha (o montante retirado é deduzido do total restante, como um “débito” da primeira cota).

Em 31/10, o Sistema contava, na verdade, com 6,9%. Como Biritiba estava abaixo de seu volume operacional mínimo (previsto no Plano do Alto Tietê, disponível aqui:http://www.fabhat.org.br/site/images/docs/volume_4_pat_dez09.pdf), deduziam o volume morto extraído. Com isso, a capacidade do reservatório diminuía, com esse débito, para 6,11% (6,5% no cálculo da SABESP). E, então, o que fez o Governo, a partir do momento em que assumiu o volume morto? Incluiu-o em sua integralidade (10 bilhões de litros, e não os 5 bilhões restantes), o que fez com que a capacidade “subisse” para 8,9%. Esse dado, entretanto, simplesmente não é verdadeiro. Se considerarmos o que existe, de fato, em termos de volume morto restante, a capacidade do sistema deveria ter subido para 7,9%. Como a política de transparência do Governo Alckmin é, no mínimo, bastante frágil, torna-se possível adotar práticas como essa. No caso do Cantareira, em que há pressão federal, ao menos podemos contar com a visão alternativa trazida pela ANA. Infelizmente, para o Alto Tietê esse dissenso não está disponível. Abaixo, a síntese dos dados relatados acima:

A esta altura, não pareceria uma exigência excessiva esperar que nossa imprensa fosse capaz de dar notícias que, pelo menos, correspondessem aos fatos: o volume morto do Biritiba já começou a ser extraído há um bom tempo, a chuva não é a responsável pelo aumento do volume do Alto Tietê, as obras para a captação da segunda cota do volume morto do Jaguari-Jacareí ainda não estão prontas e isso pode significar o racionamento imediato, a segunda cota do volume morto do Atibainha já está sendo extraída (quase na metade, inclusive), e daí por diante.

Mas é óbvio, contudo, que – salvo honrosas exceções – não se trata de mera ignorância ou de falta de esmero, mas sim de um mau jornalismo – aquele que é feito sem seguir princípios básicos do ofício em virtude de conivência ideológica irrefreável (intencional ou não). Esse contexto, aliado à inimputabilidade comportamental dos níveis estratégicos da SABESP e do Governo, permitem com que Alckmin, às vésperas de uma tragédia, consiga surfar com vitalidade, apresentando medidas inóquas ou intempestivas como marcas de um governante engajado. E, assim, quanto mais a crise se aprofundar, menos os cidadãos irão entender o que está ocorrendo, e o porquê de termos chegado a isso. O nosso jornalismo-chacrinha mais confunde do que esclarece.

Ps: Agora à noite, o G1 (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/11/alto-tiete-ganha-18-ponto-percentual-com-uso-de-reservatorio-de-biritiba.html) publicou a “explicação” da Secretaria de Recursos Hídricos a respeito do incremento de 2,4 pontos percentuais do Alto Tietê: 1,8 pontos teriam advindo da captação do volume morto e 0,6 pontos seriam resultantes da chuva. Ainda que, em tese, o argumento faça mais sentido do que o ventilado pela Folha (para a qual todo o ganho de volume teria vindo das chuvas), mesmo teoricamente seria difícil de crer que mesmo cerca de 3 bilhões de litros tenham surgido a partir de precipitações. O erro original, na verdade, continua: a SABESP incorpora todo o volume morto do Biritiba como se ele estivesse começando a ser captado (e nós sabemos que hoje ele já se encontra a mais de 1 metro abaixo do mínimo operacional, o equivalente a mais de 5 bilhões de litros). A nota à imprensa ainda comenta que o volume morto é de 9 bilhões de litros (e não 10), o que dá a esse reservatório uma perspectiva ainda mais grave de esgotamento no curto prazo. Longe de fazer um jornalismo crítico e investigativo (justamente o que dizem que fazem – e não mera oposição situacional – com relação ao governo federal), parte substancial de nossa imprensa parece se contentar com a ideia de que o bom jornalismo está na competição pela reprodução mais literal das tergiversações do governo estadual.

Escrito por: Redação

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